Texto 5: As noites poéticas de Coimbra

 
Patrimônio atual da Universidade de Coimbra, o sítio histórico de Coimbra denominado Quinta das Lágrimas resume diametralmente o sentimento de escrevê-los, passado um mês de minha chegada a Coimbra. O Quinta das Lágrimas é um jardim que recebeu inúmeras visitas da Família Real Portuguesa e é conhecido pela exuberância de suas fontes, uma delas, inclusive, nomeada por Luís de Camões como a Fonte das Lágrimas. Este daria um ótimo título para meu texto de hoje, um pouco atrasado, mas ainda quente e caloroso como uma fornada de Pastel de Belém.

O mês de outubro foi um mergulho no amarelo escaldante das noites Coimbrenses. As noites em Coimbra, ao contrário do que o Fado pode supor, são incrivelmente convidativas e alegres. Claro que de repente, numa esquina, você pode esbarrar com um grupo de jovens, trajados de capa, batucando sua triste canção, saudosa e melancólica. O fado coimbrense, realmente, faz lacrimejar qualquer um. Desta fonte, inclusive, bebeu nosso Vinicius de Moraes, que semana passada completaria 99 anos. Não é pra qualquer um. O poetinha brasileiro, que em Portugal esteve por muito tempo, escreveu um belíssimo fado com sua provável inspiração, Amália Rodrigues, uma  cantante portuguesa estupenda e de voz arranhada. Os versos diziam “o  sal das minhas lágrimas de amor criou o mar/Que existe entre nós dois pra nos unir e separar” e traduziam a quentura de estar do outro lado do oceano de quem se ama. Não é fácil não, mas é um desafio audacioso.

Vinicius tinha uma impressão cuidadosa e muito peculiar sobre Portugal. O poetinha gostava de repetir que as cidades lusitanas ainda não se despiram de seu formalismo. Cá estou mais de quarenta anos depois desta visita, e agora penetrado nestas raízes de onde o Brasil cresceu, e a impressão é a mesma.  Quando embarco  nas noites de Coimbra, minha sensação é que nem a madrugada pode derrubar o formalismo português. E o fado é apenas mais um dos resultados sanguíneos da tristeza imaculada que os jovens portugueses carregam consigo. Não é uma tristeza de sofrimento, mas um melodioso romantismo exprimido na música, no aspecto sério e na poesia diária que destas bocas lusitanas emanam.

Estou imerso nesta alegre vida de Coimbra. Vívida, sublime e com a saudade amenizada pelo contato diário com brasileiros. Como Vinicius, nunca fui um exímio patriota, mas o Brasil, de repente aqui parece diluído em cada centelha colorida e esbravejante do hino, bandeira, todos os simbolos que podemos nos apegar distante de nossa terra. Seja no amarelo das audaciosas noites de Coimbra, no verde dos belos Jardins e no formidável azul, imenso, igual e único do céu que é o teto de todos nós.


Falando em céu, que belas imagens circularam desta novela das 9 que começou ai no Brasil. Trago o assunto desta novela, Salve Jorge, a baila, porque cotidianamente vivo as tradições da Turquia com amigos desta terra, e tem sido uma interessante descoberta, entendendo a capital cultural Istambul, a língua - que já arrisco dizer algumas dezenas de palavras - e a cultura humanística e respeitadora deste povo. Esta novela, e qualquer obra que se preza, deve servir para abrirmos o horizonte de nossas mentes, entender que o diferente pode possuir grandezas tão valiosas quanto as nossas. Estou intrigado mesmo com a cultura turca e não se assustem se nos próximos postes eu revelá-los datas de uma visita a Turquia. Há novidades também de viagens para Marrocos e Madri no próximo mês, mas em breve falamos disso. Devo contá-los que amanha, cá em Coimbra, começa o grandioso Festival de Cinema Francês. Nos próximos dias meu assunto principal será o impacto destas obras francófonas, e a sensação de estar num grande festival conhecido em toda Europa. Fiquem bem, e qualquer hora escrevo mais novidades.

Texto 1: Horizontes Baianos: minha turnê de despedida
Texto 3: Enfim, Coimbra! 
Texto 4: O Idioma!  

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